Esforço físico
Ganho de altitude acumulado, distância e quanto tempo você fica em movimento. Um canyon de 7 horas com mochila molhada cansa mais que uma trilha de 12 km no plano.
1 — até 300 m de ganho · 4 — acima de 1.000 m ou mais de 8 h
“É difícil?” é a pergunta que mais recebo, e a mais difícil de responder por mensagem. Dificuldade não é um número: depende do terreno, do seu preparo, do que você já fez antes e de quanto a rota te expõe se algo der errado. Esta página abre a régua que eu uso.
Saber o desenho do percurso muda a logística inteira: onde deixar o carro, quantos litros de água carregar, se dá para voltar no meio do caminho. A Federação de Esportes de Montanha do Rio de Janeiro separa os caminhos a pé em três formatos, e eu uso os mesmos nomes.
Rapel e canyoning não cabem nesses três, porque o eixo deles é vertical. Uso duas categorias próprias:
Formatos a pé segundo a Metodologia de Classificação de Trilhas (FEMERJ, 2015)
No Brasil não existe classificação obrigatória para trilha. A FEMERJ publicou uma metodologia em 2015 com quatro parâmetros — esforço, exposição ao risco, orientação e insolação — e a ABNT tem a NBR 15505-2, para caminhadas sem pernoite, com severidade do meio, orientação, condições do terreno e esforço físico. As duas foram escritas pensando em caminhada.
Como eu também conduzo rapel e canyoning, adaptei: troquei “insolação” e “orientação” por técnica e experiência prévia, que é o que de fato separa quem consegue de quem não consegue numa parede. Estes são os quatro critérios, cada um numa escala de 1 a 4.
Ganho de altitude acumulado, distância e quanto tempo você fica em movimento. Um canyon de 7 horas com mochila molhada cansa mais que uma trilha de 12 km no plano.
1 — até 300 m de ganho · 4 — acima de 1.000 m ou mais de 8 h
O que suas mãos precisam saber fazer. No nível 1 você só se pendura e eu controlo tudo de cima. No 4 você monta ancoragem, faz nó de bloqueio e resolve um travamento sozinho.
1 — nenhuma · 4 — autonomia em ancoragem e autorresgate
O que acontece se algo falhar. Não é probabilidade, é consequência: quão longe está o socorro, se há sinal de celular, se dá para abortar no meio.
1 — resgate em menos de 1 h · 4 — sem sinal e sem ponto de fuga
Piso, aderência e o que ele faz quando molha. Granito seco é uma coisa; o mesmo granito com limo depois de dois dias de chuva é outra bem diferente.
1 — caminho batido e seco · 4 — rocha molhada, raiz solta, água corrente
Somando os quatro critérios chega-se ao nível que aparece em cada rota do catálogo. Ele é o maior dos quatro, não a média: uma trilha leve com exposição alta continua sendo avançada, porque é a exposição que machuca.
Nunca fez nada parecido e quer experimentar.
Já fez pelo menos uma saída guiada e quer mais.
Treina com regularidade e já lidou com imprevisto em campo.
Prática constante e equipamento próprio conferido.
Ela não é oficial. Não existe órgão que certifique grau de dificuldade de trilha no Brasil, e o que está aqui é a minha leitura, formada em campo e apoiada nas metodologias da FEMERJ e da ABNT. Dois condutores honestos podem classificar a mesma rota de forma diferente.
Ela também não conhece você. Altura incomoda gente que corre maratona; quem nunca treinou pode ter equilíbrio excelente em rocha. Por isso o nível é ponto de partida da conversa, não o fim dela. Antes de qualquer saída eu pergunto o que você já fez, e é essa resposta que decide — não o rótulo na página.
E ela muda com o tempo. A mesma parede em janeiro seca e em julho encharcada são duas rotas distintas. Quando as condições sobem o nível, eu aviso antes; quando sobem demais, cancelo.