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Guia de dificuldade

“É difícil?” é a pergunta que mais recebo, e a mais difícil de responder por mensagem. Dificuldade não é um número: depende do terreno, do seu preparo, do que você já fez antes e de quanto a rota te expõe se algo der errado. Esta página abre a régua que eu uso.

Antes da dificuldade, o formato

Saber o desenho do percurso muda a logística inteira: onde deixar o carro, quantos litros de água carregar, se dá para voltar no meio do caminho. A Federação de Esportes de Montanha do Rio de Janeiro separa os caminhos a pé em três formatos, e eu uso os mesmos nomes.

TrilhaComeça e termina no mesmo ponto, e a volta é pelo mesmo caminho da ida.
CircuitoComeça e termina no mesmo ponto, mas a ida e a volta não se repetem.
TravessiaComeça num lugar e termina em outro. Exige combinar carona ou dois carros.

Rapel e canyoning não cabem nesses três, porque o eixo deles é vertical. Uso duas categorias próprias:

um lance
RapelUma parede, uma descida. Sobe-se até a cabeceira e desce-se na corda até a base.
sem ponto de retorno
CanyonCascatas em sequência, descendo o vale. Entrou, só se sai pelo fim — não há como voltar.

Formatos a pé segundo a Metodologia de Classificação de Trilhas (FEMERJ, 2015)

Os quatro critérios que eu peso

No Brasil não existe classificação obrigatória para trilha. A FEMERJ publicou uma metodologia em 2015 com quatro parâmetros — esforço, exposição ao risco, orientação e insolação — e a ABNT tem a NBR 15505-2, para caminhadas sem pernoite, com severidade do meio, orientação, condições do terreno e esforço físico. As duas foram escritas pensando em caminhada.

Como eu também conduzo rapel e canyoning, adaptei: troquei “insolação” e “orientação” por técnica e experiência prévia, que é o que de fato separa quem consegue de quem não consegue numa parede. Estes são os quatro critérios, cada um numa escala de 1 a 4.

Esforço físico

Ganho de altitude acumulado, distância e quanto tempo você fica em movimento. Um canyon de 7 horas com mochila molhada cansa mais que uma trilha de 12 km no plano.

1 — até 300 m de ganho · 4 — acima de 1.000 m ou mais de 8 h

Técnica

O que suas mãos precisam saber fazer. No nível 1 você só se pendura e eu controlo tudo de cima. No 4 você monta ancoragem, faz nó de bloqueio e resolve um travamento sozinho.

1 — nenhuma · 4 — autonomia em ancoragem e autorresgate

Exposição ao risco

O que acontece se algo falhar. Não é probabilidade, é consequência: quão longe está o socorro, se há sinal de celular, se dá para abortar no meio.

1 — resgate em menos de 1 h · 4 — sem sinal e sem ponto de fuga

Terreno

Piso, aderência e o que ele faz quando molha. Granito seco é uma coisa; o mesmo granito com limo depois de dois dias de chuva é outra bem diferente.

1 — caminho batido e seco · 4 — rocha molhada, raiz solta, água corrente

A régua, nível por nível

Somando os quatro critérios chega-se ao nível que aparece em cada rota do catálogo. Ele é o maior dos quatro, não a média: uma trilha leve com exposição alta continua sendo avançada, porque é a exposição que machuca.

Iniciante

Nunca fez nada parecido e quer experimentar.

Quem já está pronto
Você caminha 40 minutos sem parar para recuperar o fôlego. Só isso.
O que entra aqui
Descida única com dois instrutores, trilha curta em caminho batido, saída de dia.
O que eu aviso antes
Não é passeio de parque: ainda tem altura, e é normal a perna tremer no primeiro passo.
  • Esforço 1
  • Técnica 1
  • Exposição 1
  • Terreno 1 ou 2

Médio

Já fez pelo menos uma saída guiada e quer mais.

Quem já está pronto
Sobe 400 metros de ladeira e ainda consegue conversar no meio.
O que entra aqui
Canyon de poucas cascatas, trilha de meio dia, rapel com traçado mais longo.
O que eu aviso antes
Exige saber nadar uma travessia curta de poço quando houver água.
  • Esforço 2
  • Técnica 2
  • Exposição 2
  • Terreno 2 ou 3

Avançado

Treina com regularidade e já lidou com imprevisto em campo.

Quem já está pronto
Aguenta 8 horas de atividade e mantém a cabeça fria quando o plano muda.
O que entra aqui
Travessia de dia inteiro, saída de madrugada, trecho final em rocha exposta.
O que eu aviso antes
Cancelo sem hesitar se a previsão virar. Aqui a margem é menor.
  • Esforço 3
  • Técnica 2 ou 3
  • Exposição 3
  • Terreno 3
Sem rota aberta neste nível agora

Extremo

Prática constante e equipamento próprio conferido.

Quem já está pronto
Você já é do meio. A gente conversa de igual para igual antes de sair.
O que entra aqui
Cânions longos sem ponto de fuga, pernoite, rotas que dependem de janela de tempo.
O que eu aviso antes
Só saio com quem eu já conduzi antes. Não aceito primeira vez neste nível.
  • Esforço 4
  • Técnica 3 ou 4
  • Exposição 4
  • Terreno 4
Sem rota aberta neste nível agora

O que esta régua não faz

Ela não é oficial. Não existe órgão que certifique grau de dificuldade de trilha no Brasil, e o que está aqui é a minha leitura, formada em campo e apoiada nas metodologias da FEMERJ e da ABNT. Dois condutores honestos podem classificar a mesma rota de forma diferente.

Ela também não conhece você. Altura incomoda gente que corre maratona; quem nunca treinou pode ter equilíbrio excelente em rocha. Por isso o nível é ponto de partida da conversa, não o fim dela. Antes de qualquer saída eu pergunto o que você já fez, e é essa resposta que decide — não o rótulo na página.

E ela muda com o tempo. A mesma parede em janeiro seca e em julho encharcada são duas rotas distintas. Quando as condições sobem o nível, eu aviso antes; quando sobem demais, cancelo.

Referências

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15505-2: Turismo com atividades de caminhada — Parte 2: Classificação de percursos. Rio de Janeiro, 2008.
  • FEDERAÇÃO DE ESPORTES DE MONTANHA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Metodologia de Classificação de Trilhas, versão 6.1, 2015.
  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15398: Turismo de aventura — Condutores de caminhada de longo curso. Rio de Janeiro, 2006.